18 janeiro 2014

A arrogância segundo os medíocres

Créditos 

“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.
“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências  quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.
Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.
Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).
Essa censura intelectual me deixa irritada. Isso porque a mediocridade faz com que muitos torçam o nariz para tudo aquilo que não conhecem, mas que socialmente é considerado algo de um nível de cultura e poder aquisitivo superior. E assim você vira um arrogante. Te repudiam pelo simples fato de você mencionar algo que tem uma tarja invisível de “coisa de gente fresca”.
Não importa que ele pague R$ 30 mil em um carro zero, enquanto você dirige um carro de mais 15 anos e viaja durante um mês a cada dois anos para o exterior gastando R$ 5 mil (dinheiro que você, que não quer um carro zero, juntou com o seu trabalho enquanto ele pagava parcelas de mil reais ao mês). Não importa que você conheça uma palavra em outra língua que expressa muito melhor o que você quer falar. Você não pode mencioná-la de jeito nenhum! Mas ele escreve errado o português, troca “c” por “ç”, “s” por “z” e tudo bem.
Não pode falar que não gosta de novela ou de Big Brother, senão você é chato. Não pode fazer referência a livro nenhum, ou falar que foi em um concerto de música clássica, ou você é esnobe. Não ouso sequer mencionar meus amigos estrangeiros, correndo o risco de apedrejamento.
Pagar R$200 em uma aula de francês não pode. Mas pagar mais em uma academia, sem problemas. Se eu como aspargos e queijo brie, sou “chique”. Mas se gasto os mesmos R$ 20 (que compra os dois ingredientes citados) em um lanche do Mc Donald’s, aí tudo bem. Se desembolso R$100 em uma roupa ou acessório que gosto muito, sou uma riquinha consumista. Mas gastar R$100 no salão de cabeleireiro do bairro pra ter alguém refazendo sua chapinha é considerado normal. Gastar de R$30 a R$50 em vinho (seco, ainda por cima) é um absurdo. Mas R$80 em um abadá, ou em cerveja ruim na balada, ou em uma festa open bar… Tranquilo!
Meu ponto é que as pessoas que mais exercem essa censura intelectual têm acesso às mesmas coisas que eu, mas escolhem outro estilo de vida. Que pode ser até mais caro do que o meu, mas que não tem a pecha de coisa de gente arrogante.
O dicionário Aulete define a palavra “arrogância” da seguinte forma:
1. Ação ou resultado de atribui a si mesmo prerrogativa(s), direito(s), qualidade(s) etc.
2. Qualidade de arrogante, de quem se pretende superior ou melhor e o manifesta em atitudes de desprezo aos outros, de empáfia, de insolência etc.
3. Atitude, comportamento prepotente de quem se considera superior em relação aos outros; INSOLÊNCIA: “…e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão.” (José de Alencar, A viuvinha))
4. Ação desrespeitosa, que revela empáfia, insolência, desrespeito: Suas arrogâncias ultrapassam todo limite.
Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros. São os outros que se colocam abaixo de mim por não ter os mesmos interesses, taxar esses interesses de “coisa de grã-fino” (sim, ainda usam esse termo) e achar que vivem em um universo dos “pobres legais”, ainda que tenham o mesmo salário que eu. E o pior é que vivem, mesmo: no universo da pobreza de espírito.

Fonte : ansiamente
Postado por Ana Carolina Dias às 17:58
Comentários
4 Comentários

4 comentários:

É sempre assim! As pessoas parecem que não gostam que uma pessoa tenha mais conhecimento cultural do que a outra. Não viajo, mas sempre que uma pessoa me vê lendo livro " ué outro débora?" e depois logo ouço pelas costas " quer se passar de nerd coitada". E não é assim. Ler para mim é um hobby. E quando vejo algumas amigas viajando fico ouvindo comentários " Lá vai voltar com fotos, com o inglês melhor, vai jogar na nossa cara". E isso me faz pensar o quanto as pessoas são baixas. Baixas sim, pois enriquecer de cultura, conhecimento é errado. Mas coisas fúteis pode!
http:/Enfim Dezessete
O texto não fala nada além de verdades. Li esse texto no blog da Gi e achei um espetáculo. Hoje em dia as pessoas não passam de arrogantes, tudo que a gente faz é rotulado. Na verdade o ser humano gosta de se sentir superior, se alguém faz melhor sempre é criticado com um erro mínimo, se faz pior a arrogância invade mais ainda. Acho que o que falta é ter vontade de viver, acho que se cada um cuidasse da sua vida e vivesse ela não teria o que criticar!
*levanta da cadeira e aplaude* Menina, você tirou as palavras da minha boca! Fiquei chocada! O modo como você articula as palavras e monta as frases é incrível. Esse texto me impressionou muito, não só como a sua credibilidade, como a sua coragem de falar sobre algo que - pelo menos eu considero - polêmico. A arrogância está sempre presente em nosso dia a dia. Quer um exemplo? Se vista bem, com roupas de marca, e saia andando por uma rua qualquer. Sorria para o primeiro que passar. Esse, tem mil e uma possíveis ações: ou irá sorrir também por ver que você está bem vestida e, portanto, é igual a ele, ou irá simplesmente ignorar o seu sorriso e revirar os olhos, por achar que você está tentando ser melhor que ele. Também há - os poucos que se salvam - que, bem vestidos ou não, irão lhe retribuir o sorriso, e infelizmente ainda há os que novamente revirarão os olhos e, quando você passar, darão uma leve risadinha. Enfim, gostei muito do seu texto, se eu tivesse 1/9 desta incrível habilidade que tu tens eu estaria realmente muito feliz. Que quando você entrar na faculdade de jornalismo tu obtenha muito sucesso na profissão que tu almeja seguir. Espero que algum dia eu possa falar com você, pois seu jeito de escrever me deixou curiosa sobre a pessoa que você é, e pela sua escrita pude perceber que você é sim uma pessoa muito legal - pode isso? -.

Mil e um beijos!
Mabi
Ah, eu tenho um blog. Ele não tem muitos textos desse tipo, não é tão grande quanto o seu e provavelmente não possuo o dom "da palavra" que tu possui e tão bem manuseia. Ainda assim, te convido a dar uma passadinha lá. Prometo que não é tão ruim quanto parece ;)
http://mabimello.blogspot.com
Oi Mabi, fico contente que tenha gostado do post,mas não fui eu que escrevi :*

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